terça-feira, 17 de julho de 2007

Vil Redenção



Eu só quero dizer que não há razão para que chore assim,
Pois o meu coração nunca irá perder o que ficou em mim
Dos seus compassos mais disfarçados na ternura do que é.
Hoje darei alegria à nossa pobre loucura salva por nossa fé.

Vem, meu desejo vão que me diz da paz que eu preciso ter,
Traga outros recitais, outros ideais para que possamos ler
Perante estes erros mil, estas fugas sem qualquer direção;
Assim, longe da tormenta, curaremo-nos desta vil redenção.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Mais Rápido Que o Tempo



A paixão retorce a minh'alma que agoniza por teus lábios,
Todavia é doloroso imaginar quanto te quero.
Teus pigmentos - brancura e vermelhidão -
Açoitam a placidez do pensamento gélido que quer existir,
Contudo não importa por apagar as visões do futuro;
Visões de morte e fim que me tentam a antecipações.

A imparcialidade do silício que me trouxe a tua carne italiana
É imundície perante o pulsar da existência,
Mas é meio único para a cura deste sintoma.

Construí mais um castelo de areia para a próxima primavera
E este hábito que não coagula poderá entristecer-me novamente
Se o temporal passar por aqui.

Preciso ser mais rápido que o tempo...

domingo, 15 de julho de 2007

Delírio e Palavras?



Não me parecem delírios o que leio,
Pois são puras e simples as tuas palavras.
Tuas asas estão além do que interveio
A curar o meu rancor e a minha raiva.

Creio em ti e no rastro do teu vôo singelo,
Fingindo não estar eufórico pelo amor
Que interrompe o meu estúpido ato fulo;
Ameaço a placidez com o meu torpor.

Dos turbilhões formados nas profundezas,
Peço a ajuda de deuses que nunca vi
Para que alcances o máximo da destreza
E desenhes o que sempre foi para ti.

Está tão próximo por ser tão sutil,
Está tão claro que o medo fugiu.

A Cultura e a Obrigação no Que Queremos



Que merda, chutei a fonte!
Escrevia sobre a cultura e me perdi,
Pois não me lembro do fio ou da meada,
Só do nascedouro do tema:
Uma justificação a considerá-la quantitativa...

Cultura é qualitativa, meu bem,
Você faz melhor selando beiços senis!

Cultura é moral, são hábitos e costumes,
Todo grupo tem uma para que se aprume.
Cultura é o que achamos ser beleza e bondade
Sem nos questionar se tudo isto é verdade.
Cultura é preferência e não somatório,
Pois preferimos as bundas e não os olhos.
Cultura é aquilo que nos obriga apostar no futuro
De uma civilização para todos e de frutos maduros.

Cultura não é substantivo, amor,
É verbo.
Cultura não se ganha, querida,
Absorve-se!

sábado, 14 de julho de 2007

Preservação da Imagem



O que está havendo comigo?
Nunca na vida fui tão preciso
Em uma frase apenas para ser
Um acessório a me entreter.

O que está havendo com tudo?
O meu espírito ainda é ludo
E sorri desta falta de objetivo
Coletivo na aparência dos vivos.

Por que nenhum brasileiro se alegra em ser peça
A definir-se como parte sem que se entristeça?
Devem ser os antropocentrismos religiosos ou morais
Que nos impedem de ver que somos iguais (...)
Ao lodo,
À fauna e flora,
Ao lixo,
À luz...

Construir abstrações para provar sozinho é muito bom,
Mas utilizar espelhos de prazer e ter ciúmes é estranho!

Somos tão estranhos que largamos o procedimento
Para sorrir à família mesmo que precisemos esmurrar o vizinho
A tentar sorrir para a câmera também.

A lei da evolução para a preservação da imagem?

O que está havendo comigo?
O que está havendo com tudo?

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Sem Sangue



Canso de fugir de um império de palavra e farsa,
A tentar me convencer que você é a minha desgraça.
Tento entender como interpreto a sua dança fria
Que anoitece o meu desejo em sorriso e agonia.

Peço para o tempo que nos mostre o que compadece
Nas praças desbotadas que estivemos do norte ao leste
Para que estejamos mais propostos a uma nova luta
(Sem o medo que nos trás esta maldita e robusta culpa).

Findo o discurso a lhe dar mais do que uma suspeita
Nascida do impulso incoerente de paixões secretas.
Não creio que exista um perdão para o meu despautério,
Porque este meu erro foi não ter a levado a sério.

Assisto-a definhar e distancio o meu querer faminto
Por ter sido mais fraco que todo orgulho que sinto...
Disperso na maré de água poluída em sangue,
Não me torne a sua dor, não desejo que se zangue.

Eu já sei o que há neste conto de fadas,
Mas não sei se calar foi uma carta encantada.
Eu já sei que amar é remédio pra tudo,
Entretanto me vejo mergulhado em absurdo.

Anna Fracassi



Contesto o que sou quando te leio
Nas aparências túrgidas de beleza.
Sinto o que corre neste teu seio
De imaginação além desta destreza.

Também preciso de heróis, italiana,
Dos tais heróis que deturpam o ser
Em novas vias de transformação profana,
Acalmando surpresas que hei de esquecer.

Toquei o que criaste de sagaz
A descobrir meus próprios ideais
E senti que preciso de uma paz
Que nasce de propostas mortais.

O Enigma de Rita

Esta noite em Ribeirão Pires está tão fria que a neblina turva a visão à distância de seis metros. As luzes nos postes formam desenhos cônicos da sua fonte ao chão, com tanta clareza que a noção espacial parece estar mais apurada. Rita propõe a Lucas que a leve para casa, mas este discorda.

- Porra, Rita, assim nem dá pra sair contigo! Qualquer friaca já é bastante pra você pedir arrego.

- Não é só isso, não me sinto bem.

- O que você tem?

- Estou grogue pela bebida e pelo sono.

- Faz o seguinte, para de beber e toma um refrigerante.

- Não bebo há uma hora.

- Então bebe um refri.

- Poxa, eu quero ir embora pois já passa da meia-noite.

- A carruagem virou abóbora?

- Engraçadinho.

- Deixa de ser enjoada!

- Qual é a sua, Lucas? Resolveu me chamar pra farra só pra me ofender?

- Que porra! Você só sabe reclamar?

- Também sei me despedir. - levantando-se.

- Ei, espera! Vai andando daqui até o Parque das Fontes?

- Eu me viro.

- Espera, Rita, eu te levo.

- Não quero.

- Deixa de ser orgulhosa, sua chata.

- Agora que não quero mesmo. - distanciando-se.

- Você quer ir? Vai, sua louca!

Rita sai do Canoa Quebrada aborrecida e se dirige até o ponto de táxi do terminal rodoviário, mas não há qualquer carro por lá. Não quer ficar esperando por um ônibus por não ter certeza se irá passar algum em tempo condizente com a sua irritação, então prefere ir andando até a sua casa.

O dia amanhece e ninguém tem notícias de Rita; a sua mãe, Dona Eunice, entra em desespero. Passa-se meses sem uma explicação para o sumiço da moça, enquanto a polícia investiga o caso sem sucesso. Doze anos depois do acontecido, Dona Eunice recebe uma ligação telefônica:

- Mãe?

- Rita, onde você está? Onde você esteve, menina?

- Não sou mais uma menina, mãe.

- Eu sei, está com vinte e nove, meu amor... Mas me diga: onde está? Por que fez isso comigo? Eu me preocupei por todos os dias desde que sumiu!

- Sempre te observei... Ainda bem que aprendeu a usar a internet comigo.

- Minha filha, não me deixe aflita... Diga-me onde está, por favor!

- Estou onde menos imagina. - seguido de um sorriso ouvido pela respiração.

- Não me enlouqueça, Rita! - nervosa e com voz alterada.

- Adivinhou, mãe. - desliga o telefone.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Mulata 45 ou 36



Temperei a voz com alecrim
A tentar mais um doce fim:
Nada luta por esta luz
Tatuada no que eu fui,
Oprimida a nos pertencer.

Farei bem menos que o seu tédio
Encantando o meu dedo médio;
Zumbi da moral em você.

Que me jure a sua versão,
Uma intempérie tentação
Enobrecida pra esconder.

Mulata casta do que sente,
Esqueça do lábio que mente!

Mulata sábia e imprevisível,
Anula a fome do impossível
Traidor daquele que insulta
O humilhado pela multa
Umbrosa deste renascer.

Il Dolore Ambiguo



Devo comunicare con voi circa i nostri difetti,
Invitato per rendere alcuni disordini irragionevoli...
Odiare se potete,
Amare se desiderate.

Ancora niente è chiaro per me...
Amico scusami.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Coisa Ridícula



Embora toda a arte não deva ser banida,
Este ladrillhamento não me parece vida;
Pelo menos aquela que se propõe viva
E atacada pelo trishula afiado de Shiva.

A destruição é a mãe da transformação?
Então por que mantém um discurso vão,
Vago até que se concretiza em cotidiano
Inútil para a utilidade de um presente fútil?

O Futuro da Fé



[Narrador]
As lâmpadas acendem avermelhadas,
Gradualmente, ao som das risadas
Que parecem provir de um infinito
E, então, ouve-se um súbito grito.

[Janaína]
Onde estás, amor meu?
Entregaste o que é seu
E agora sofro descontente
Em mil furores indecentes!

[Narrador]
Nos arbustos, uma chama
Que ilumina o ventre de Ana.

[Janaína]
Ana, ajuda-me, minha fada!
Onde está a minha amada?

[Ana]
Tu te importas contigo mesma,
Que esperes o fim da Quaresma
Para curar a dor e a mácula;
Só terás Lúcia durante a Páscoa.

[Janaína]
O meu desejo é pelo dom de Lúcia,
O que me causa calor e astúcia
Em dias gélidos e conturbados:
Nossos espíritos são igualados
Pela presença de uma à outra,
Como guardamos toda a Sutra.

[Ana]
Não tentes engodos e enganação,
Sei que mataste a revolução
Por ser contrária ao que aspiras:
Todo o ouro moldado em liras.

[Janaína]
Não é verdade, tu te enganas,
Não acredites em bocas insanas!

[Ana]
Devo fazer o que Gaia pediu:
Isolarei a tua libido pueril
Até que não sejas ameaça,
Pois só há apenas uma raça.

[Janaína]
Não sou humana e tu me enjaulas?

[Ana]
És uma pergunta às nossas falhas.

[Narrador]
Ana congela o amor de Janaína
A transformar a mulher em menina
Para justificar o seu sentimento;
O futuro da fé será um tormento.

terça-feira, 10 de julho de 2007

All Rigths Violated



Desafio é estar contigo
Quando nada é preciso;
É a injúria do meu ser,
Construtor do bem-viver.

O infinito é a renovação
Do universo e da ilusão,
Dos impulsos e repulsas,
Das verdades sob as fuças.

O meu direito será deixar
O teu espírito controlar
As peças de um jogo vil
D'agora e do seguinte frio
Que teima em nos perdoar,
Mas falta em nos separar.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Jacky

Ela só te deu um palpite,
Não penses que foi um convite.
Ela só te fez um favor,
Não te iludas com juras de amor.
Ela não quis mais que isso,
Apenas da vida um indício.
Ela se faz em si mesma,
Não em desejos de fama.

Dedos Decepados



Decepados da falange em diante,
Os dedos apodreceram no mar
A compor a dieta dos peixes
E a findar as prévias do mundo.

Quem adivinhou a não ser você?
O que aconteceu com a fúria cigana?

Espero que fique em paz
E não atormente as crianças
Deste lugarejo perdido no mapa.

domingo, 8 de julho de 2007

Banido da América



Baniram-me da comunidade
Por ter feito uma badernagem
Com a musa vadia dos novos,
A princesa plebéia dos povos.

Adeus, meu nobre acalento,
Meu pobre sentido e momento,
Pois fui sem ser avisado
E o palhaço está cansado...

Banido da América mais uma vez.

C'Est Tout de la Même Merde

|.X....................X.| Afrodite
|..X..................X..| Iemanjá
|...X................X...| Ísis
|....X..............X....| Iara
|.....X............X.....| Madalena
|......X..........X......| Lilith
|.......X........X.......| Emma-O
|........X......X........| Nêmesis
|.........X....X........ | Maria
|..........X..X..........| Eva
|...........XX...........| Gaia
|............X............| Lux Ferre
|...........XX...........| Blasfêmia do Deus-Homem
|..........X..X..........| Satanás
|.........X....X.........| Jesus
|........X......X........| Sidarta
|.......X........X.......| Oxalá
|......X..........X......| Salomão
|.....X............X.....| Moisés
|....X..............X....| Maomé
|...X................X...| Odin
|..X..................X..| Hórus
|.X....................X.| Zeus

Doutor das Almas



Ô, Doutor, dá um jeito em mim,
Sofro de falta de continuidade.
Ô, Doutor, tenta por um fim
Nesta praga que parece maldade.

Os versos caem numa nova estadia
E não é indiferença ou ironia,
É uma força que me impõe a condição
De ser pra sempre o que sempre foi em vão.

Alumia o meu jeito de acabar
Com os domínios que não tentei criar
Por serem fato antes de ser poesia,
Por serem ato depois de ser alegria.

Passa um remédio pra que eu fique constrangido
Quando achar que a construção é um abrigo,
Ou assim que a posse me tome em tentação
A definhar a minha alma e coração.

sábado, 7 de julho de 2007

Aparência de Morte



Não tive medo do seu fracasso,
O que iria desfigurar meu esboço,
Pois seria mais uma traquinagem
Do tempo em nossa curta viagem.

Vertido, o sangue secou na sua blusa
E desenhou a face viva de Medusa
A tornar pedra os nossos iguais,
Intrépidos em sonhos primordiais.

Vagalumes nos carregaram, enfim,
E nossas armas carregadas de festim
Enganavam a platéia seduzida e torpe
Pela aparência dada à nossa morte.

Desalinhado

Importas-te se vejo o que não existe?
Abusas-te a falácia de um mundo triste?
Não sei se devo corromper-te, amor...
Não sei se quero perfumar o odor
Que exala destes cadáveres azuis
Desenterrados pelo som da tua voz.

Mal-Entendido

Ela se afastou lentamente a chamar a atenção para o seu dorso bem desenhado. Tiago não entendeu por que Denise o esfaqueou de modo traiçoeiro após chegar como se quisesse retomar o relacionamento. Suas pálpebras pesaram quando a garota desapareceu pela porta sem olhar para trás. Ele, enquanto morria, xingou-a por não ser sua.

A ligação telefônica

Denise ligou para Tiago com a voz embargada:

- Tiago, preciso falar contigo.

- Denise, onde foi parar? Também preciso falar contigo!

- O que precisa falar?

- Não consigo viver sem você, meu amor. Por que me tratou daquele jeito?

- Estou confusa, Tiago, não sei o que estou fazendo.

- Podemos nos ver?

- Sim, claro que podemos.

- Se você quiser pode ser agora mesmo!

- Não, calma.

- Quando?

- Pela tarde é melhor, umas duas horas.

- Onde?

- Eu vou ao seu apartamento.

- O que quer falar comigo, meu anjo?

- Não pelo telefone.

- Está bem, espero.

- Então eu aparecerei duas horas da tarde.

- Estou esperando, Denise... Por favor, não falte, quero te ver.

- Não vou faltar, certeza... Tenho que ir.

- Mais uma coisa...

- O que?

- Eu te amo.

- (...)

- Ouviu?

- Ouvi.

- Eu te amo, não se esqueça disto.

- Não vou esquecer.

- É bom ouvir isto.

- Tenho que desligar.

- Certo, estou te esperando.

- Ok, até mais.

- Um beijo.

Denise desligou rapidamente e Tiago ficou a pensar como se portaria para reaver a paixão da moça.

O encontro

O relógio marcou duas e meia da tarde e Denise não apareceu, portanto, Tiago resolveu ligar para seu celular:

- Oi, Denise, onde você está?

- Estou aqui em baixo, já irei subir.

- Ok, te espero na portaria.

- Não precisa, é na portaria que estou.

- Ah, espero no elevador.

- 'Tá bem. - desliga.

O rapaz correu para o elevador a fim de recepcioná-la. Denise chega com cara de poucos amigos.

- O que houve?

- Estou cansada, briguei com a minha mãe.

- Não fique assim, vamos entrar. - beijando-a no rosto.

- Resolvi vir para discutirmos sobre o que aconteceu na semana passada.

- Denise, foi um mal-entendido, eu não queria fazer aquilo.

- Quer dizer que fazer sexo comigo dormindo é um mal-entendido?

- Pensei que estávamos num clima, entende?

- Não, não entendo. Resolvi ser legal contigo, dormi vendo um filme e acordei estuprada; não dá pra entender.

- Estuprada? Espera, Denise, não foi bem assim.

- Não foi? Foi o que?

- Foi um engano meu.

- Um engano seu, 'tá certo. Por favor, me dá uma água.

- Dou sim, vem cá.

Os dois entraram na cozinha e Tiago caiu golpeado pelas costas.

- Denise!

- Eu me arrependo amargamente da primeira vez que resolvi foder contigo, seu cachorro!

- O que é isso, Denise?

- Você só sabe dizer isso, idiota? Vai morrer sangrando como um porco e só sabe dizer isso?

- Denise, eu te amo.

- E eu te tenho nojo!

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Vulgaridade



Esta vulgaridade, de repetitivo, é maravilhosa;
traz-me a ternura do ócio coletivo.
Esta vulgaridade, de repetitivo, é um conflito
que denuncia o quão estúpido sou a achar-me além do ser.

Esta vulgaridade é simples,
singular a todo o mundo,
intensa por toda a duração
e saudosa à sua saída.

Esta banalidade é excitante,
cativante no seu meio
e angustiante no interlúdio.

Ah, eu sou um calhorda!

A Constituição da Mulher



Segui o som da sua respiração
Para prever quanto seria a solidão
Dos meus atos falhos no escuro
E deste sensível calor impuro.

Não me importa mais se quer,
Pois aprendi a não te esquecer
Sem ferir tão fundo no espírito
E sem mais dar à dor um mérito.

Penitenciamos a cor da vida,
Tão bela em verde-escuro, florida,
Que não crimos no impossível
A aparentar algo desprezível.

O seu corpo nunca a perdoará,
Entretanto a cura poderá chegar
Se nos calarmos um ao outro
À luz do amarelado livro morto.

Constitua-se daquilo que é
Para que de ti tenham fé,
Mas me deixe aqui, mulher,
Pois não quero mais perder.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sacré-Cœur



Vamos brincar do jeito que você quiser,
De ciranda-cirandinha com o Sacré-Cœur
E de aquarela invertida com as cores do céu
Para que o o passado não se torne outro réu.

Vamos fugir para onde haja a intuição
E a espada flamejante do velho ermitão,
Pois queremos ter um dia de virtude
Em meio esta sujeira, medo e saudade.

Vamos sorrir das anedotas do tempo
E nos deixar ser acariciados pelo vento,
Por conseguinte viremos dos teus lábios
Em dia que a ironia não partirá dos sábios.

Deixemos as humilhações de lado, petite,
Pois esta pobreza conceitual ainda persiste
No que consideramos mais soberbo e belo,
No que atraímos para um discurso cego.

Trois VI



Você me faz conter sentidos ansiosos,
Romper os nós de números tenebrosos,
Mas cremos naquilo que acabou
Em cenas mal gravadas de amor,
Em cartas derivadas do Tarot.

O seu suspiro iludiu o meu instinto
A denunciar a inverdade que sinto
Na beleza de mais uma paixão,
No disfarce para a redenção,
Ou no alarde para a sedução.

As Três Irmãs

A briga, se não foi algo de espetacular, rendeu conversa para o bairro durante uns bons meses. Quiqui não desgrudava do cabelo de Lola enquanto Didi tentava apartar a briga. O povo que passava por ali parava para olhar e nada fazia. Leandro corria para tirar a irmã da confusão.

Personagens



Quiqui é uma garota que atrai olhares masculinos por sua voluptuosidade, embora seja uma negação de semblante; tem um nariz estranho, pontiagudo e com narinas deformadas. A pele é alva e cheia de sardas, geralmente muda a cor do cabelo para ressair-se na multidão. Nunca deu sorte com relacionamentos heteroafetivos, pois, no português vulgar da comunidade, é uma daquelas que não dá para deixar de comer: não há o amigo que não resolveu dar uma olhada nos seus decotes ou pernas. É filha de uma ex-prostituta com um rico industrial. É uma puta entre quatro paredes, mas é recatada e disfarça timidez em público.
Lola já é uma mulher, ao contrário das amigas. É gorda e evita andar em público. Adaptou-se a uma vida noturna para fugir dos olhos mesuradores da estética. Freqüenta uma roda de amigos mais jovens na esperança de ser cobiçada por garotos inexperientes. Das três, é a única que trabalha, mas vive chorando miséria para que a Quiqui pague as contas da pastelaria com a mesada que recebe do pai. É boa oradora e escreve muito bem, além de ter uma voz agradável.
Didi é adorada pelas duas amigas por ser pobre, feia e burra. Sempre diz coisas idiotas e concorda com tudo o que dizem, mesmo sem saber com o que está concordando. É muito protegida por elas e pelo irmão mais velho, Leandro. Seria, o que a gíria zela, uma sanguessuga.
Leandro é um rapaz que se vangloria por ser trabalhador, honesto e digno, mas suas pretensões nunca saíram do papel e vive às favas com o seu patrão por melhores salários. Aprecia academias de ginástica e artes marciais. É um brigão explosivo, famoso por muitos olhos roxos nas festas da cidade.
Daniel é um cara que não se pode confiar, sempre pensando em exibir seu predicado físico e dialético. Peca por ser intransigente e malicioso em excesso. É um mentiroso que consegue transformar falácias em verdade.

O grande dia de Lola



Havia um ano que Lola não conseguia um namorado ou ficante, a coitada já havia mudado o seu comportamento; sempre triste e resmungando pelos cantos. Havia ido a uma festa com suas amigas e se deprimiu um pouco mais quando percebeu que até a Didi se atracava com um cabra, na porta do banheiro. Sentou-se à mesa, pediu uma caipirinha; duas, três, quatro.
O mundo já rodava quando Daniel sentou na cadeira ao lado e perguntou:
- O que há, Lola?
- Estou bêbada.
- Olha, segura a onda aí que vou pegar uma cerveja para nós. - Daniel já preparava o plano de misturar destilada com fermentada, deixar Lola embriagada e obrigá-la a pagar a conta.
O rapaz vai até o balcão da casa, pede uma cerveja, pega a garrafa e dois copos, solta uma piadinha para o garçom e volta:
- Pronto, amor meu, agora me diz o que você tem. - cheio de sorrisos.
- Ninguém gosta de mim. - Pelo timbre da voz, Daniel percebe que não será necessário embriagá-la.
- Poxa, Lola, eu gosto de você!
- Gosta nada, você só quer que eu te pague uma breja. - movimentado o braço rapidamente a derrubar o copo no chão, sujando o peito com cerveja a denunciar seus seios.
Daniel olhou para os peitos de Lola e se excitou com a cena. Avistou as redondezas e percebeu que os pares já estavam feitos. Questionou:
- Quer sair daqui comigo, agora?
- Para onde?
- Vou te levar em casa e provar que não sou de todo ruim. - Lola mora a duas quadras da casa de apresentações.
- Poxa, você faria isso por mim?
- Claro, vem, levanta.
Daniel ajuda Lola a levantar e ela pede:
- Deixa eu me despedir das meninas.
- Elas estão acompanhadas e você já está bêbada. Vai chamar a atenção de todos.
- É verdade(…) você é um anjo. - aos soluços.
O casal sai da casa de apresentações e Daniel faz o cálculo de onde encostará Lola para lhe dar uns amassos. É tarde, quatro horas da manhã, e não chamaria tanta atenção. Ele pergunta:
- Você está bem?
- Estou com um pouco de azia(…) Ei, sabe que eu te acho um gatinho! - era o que o lobo precisava para pular na ovelha.
- Acha mesmo? - já olhando para o decote da moça.
- Sim, acho. - “Feito!”: Pensa o lobo.
- Olha, deixa eu te segurar direito. Encosta aqui na parede porque ‘tá escorregando.
Daniel encosta Lola na parede: ela está pálida e suada. Ele não consegue tirar os olhos daqueles seios. Segura-a por debaixo dos braços com as duas mãos e a ergue, dizendo:
- Descansa um pouco.
- É, estou cansada.
- Olha para mim. - Lola, face a face com Daniel, pede:
- Me beija.
Daniel faz uma representação romântica, aproximando-se lentamente quando - na verdade - deseja arrancar as roupas da mulher e fazê-la ali mesmo. Beija-a como se a amasse, abraça-a forte para sentir o troféu contra seu tórax. Indaga:
- Vamos para a praça da prefeitura? - a duas quadras dali, o ninho de amor perfeito; fica vazia na noite de sábado para o domingo.
- Para que?
- Quero ficar mais tempo contigo.
- Vamos.
Daniel a leva para a praça aos beijos que só são apaixonados por parte de Lola, o rapaz só deseja descarregar a sua libido e ir embora. Lola, encantada, confessa:
- Há um ano que eu não beijo ninguém.
- Verdade? - fazendo cara de surpreso, apesar de não estar.
- Bem, de vez em quando eu brinco com a Quiqui e nos beijamos, mas não é sério. - aí sim, causando surpresa.
- Nossa, como é isso?
- Bem, as vezes não é só beijo. Faço umas massagens nela e ela em mim quando estamos muito estressadas. - o queixo de Daniel cai; uma aquisição para os seus trunfos.
- Não sabia que vocês eram tão íntimas, mas entendo. - não entende.
- Olha, acho que fiz besteira. - fez. - Promete que não conta isso pra ninguém? - cismada pela fama de Daniel.
- Prometo, sim.
- Promete mesmo?
- Prometo. Vamos para a praça, esquece isso. Não está aqui quem ouviu.
Lola está tão bêbada que confia no ficante. Já estão perto da praça e Daniel mal vê a hora de tocá-la. Escolhe estrategicamente o banco em que irão sentar e caminha cansado pelo peso da mulher gorda. Senta-a com cuidado - para não estragar o momento dela e, conseqüentemente, o dele - e a beija de pé. Pergunta:
- Está bem, Lola?
- Sim, acho que suei o bastante para melhorar. Vem cá! - puxando-o pelos braços.
Lola dá um grande beijo em Daniel, um beijo com sotaque de convite para tomá-la com força. Daniel entende o sentimento da moça e, ao mesmo tempo que a beija, invade o interior das suas pernas com a mão esquerda, subindo aos seios. Levanta a blusa pela metade e se excita com os belos mamilos rosados; usa a língua para rodeá-los, desenhá-los. Lola geme mais intenso quando melhor e Daniel a ouve para guiá-lo. Os dois são uma só pessoa agora, no mesmo compasso e torpor.

O dia seguinte



Apesar de ter sido deixada em casa sem promessas e com certa indiferença de Daniel, Lola não esquece a história; tenta achar uma maneira para revê-lo, gostou do sexo embora não o considere grande pessoa. Resolve telefonar para a Didi:
- Alô. - Didi.
- Oi, doidinha!
- Oi, Lola! Onde você foi parar ontem, heim? - ironicamente.
- Eu fiquei com um cara.
- Nossa! Quem foi a vítima?
- O Daniel.
- O Daniel? Eca, você abusou!
- Eu estava completamente bêbada, mas ele é bom. Foi uma gracinha comigo até a hora que conseguiu o que queria, mas não prometeu que seria um anjo depois disto. Foi educado.
- Mesmo assim, eca!
- Você vai para a pracinha hoje?
- Vou sim, marquei com Quiqui às cinco horas.
- ‘Tá bom, vou lá também.
- ‘Tá(…), mas o Daniel(…), eca!
- Pára, Didi!
- Já parei, desculpa. Só achei estranho.
- Vou indo. Nos encontramos na praça.
- Tá certo, beijinho.
- Beijinho. Até mais!

A praça



Lola chega na praça e vê Quiqui a conversar nervosa com Didi. Apressa-se para saber o que está acontecendo. Quando a Quiqui a vê, aproxima-se da Lola e diz:
- O que você pensa que fez? - irritada.
- O que fiz?
- Cara, você ficou com o Daniel?
- Até você, Quiqui?
- Você acha que eu fiquei com o idiota do Lucas por que?
- Por que teve vontade?
- Daniel é meu!
- Seu? Como não sei disso?
- Por que não estava certo, fiquei uma vez com ele.
- Fala sério, Quiqui! Eu não poderia saber.
- Você ‘tá gostando dele?
- (…)
- Diga, mulher! Você está gostando dele?
- Não sei.
- Como não sabe?
- Não gosto dele como pessoa, mas você sabe que estou carente.
- Como assim? Você transou com ele?
- Sim.
Sem Lola esperar, Quiqui se arremessa contra ela a segurar-lhe os cabelos.

O fim da briga



Enquanto Leandro afasta as duas amigas, Quiqui grita:
- Estou grávida, sua cadela! Estou grávida!
Lola pára por alguns instantes e pede:
- Quiqui, espera(…) Desculpa, eu não sabia! Vamos para a minha casa conversar melhor.
- Não vou para lugar algum contigo, sua traidora!
- Eu não sabia, Quiqui. Não pode me chamar de traidora. Estava só e ele veio falar comigo.
- Eu vi o que aconteceu, sua cadela! Daniel queria te ajudar e você se aproveitou.
- ‘Ta bom, então eu me aproveitei!
Quiqui pula novamente contra Lola, mas Leandro a segura enquanto a mesma se debate nos braços do rapaz. Lola diz:
- Quem vai embora sou eu. Quando esfriar a cabeça me procure.
- Só se for pra te matar. Ouviu? Pra te matar, sua rampeira!
Lola volta para casa com lágrimas nos olhos, a saber que a personalidade de Quiqui não deixará o suavizar do conflito acontecer. Pensa na amiga grávida e na possibilidade de não conhecer o sobrinho de verdade, que vinha nas conversas das brincadeiras de menina.

O golpe de misericórdia



Lola está trabalhando e desmaia. No posto médico da empresa, acorda e está de frente ao médico e sua mãe. O doutor a anima:
- Você está bem, menina. Não se preocupe, vocês estão bem!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Ana Clara



Quinhentos quilômetros ao sul de Trípoli;
O Saara traz uma ventania que não me nutre
E lá está ela,
Serena e alva.

Meus pés descalços borbulham em queimaduras,
Mas persisto em alcançá-la
No impureza do que sou.

Não sei se o oásis que a banha existe,
Entretranto expulso as minhas forças mortais
Que já não mais disponho
Por estar há três meses em andança,
Alimentando-me pela sorte
Quando encontro alguma caravana).

Ó, Deuses do deserto,
Digam-me se este é o caminho correto!
Ó, minha eterna Afrodite,
Ajude-me a alcançá-la n'alma!

terça-feira, 3 de julho de 2007

Carta de Sofrimento



Eu te vi sangrar no lodo em que dormiu
E quis ludibriar teu prazer infantil.

Não, não me impeça que te escreva este fim,
Não me diga que eu penso só em mim,
Não se afogue na demência do pudor,
Não invente uma mentira de amor.
Eu não sou,
Eu não sou,
Eu não sou o que desperta o teu furor.
Eu não sou,
Eu não sou
Nossa estátua lapidada de torpor.
Eu não sou,
Eu não sou
O princípio que nos prende sem calor.

Atira,
Suspira,
Inova,
Renova,
Insulta,
Deturpa.

Retorno ao começo com o presente gasto;
Quisera eu viver aqueles tempos castos
(Eu sei que a roldana não possui sono
E que para o passado resta o abandono).

Deslizes definem todo o nosso azar,
Mas foram deslizes que me fizeram amar.
Estou compulsivo pelos beijos sangrentos
Que me fizeram vomitar todo este tormento.

Novas alianças reformam velhos hábitos
Enquanto assisto assustado a espasmos súbitos,
Entretanto é o mesmo garoto que escreve estes versos,
A dizer de outras esperanças e outros gestos.

Continuo me inundando de suja verborragia
E cultivando flores sagradas de ironia
Para tentar surtar o tempo apaixonado
Que me induz a um impulso ilustrado,
Para que nunca mais precise me estender
Àquilo que jamais poderei entender.

Atira,
Suspira,
Inova,
Renova,
Insulta,
Deturpa.

Que não me toques pela nuvem estéril,
Pois se volvem no peito dum anjo etéreo
A descansar evidência na boca da pitonisa:
É uma pena não dar ouvidos ao que me avisa.