quinta-feira, 28 de junho de 2007

Às Vezes



Às vezes me parece ironia
Estar mergulhado nesta agonia.
Não quero ser grato ao que me sufoca;
Aos que desejam minha vida à base de trocas.

Às vezes agressivo, às vezes sereno:
A partir das reações eu vou aprendendo.
Às vezes indeciso e às vezes em certeza:
É na lama que encontro a sublime pureza.

Foram muitas as vezes que caí machucado
E dessas tantas consegui sair aliviado.
Foram poucas as vezes que não assimilei
E fui insano a repetir onde errei.

Zeus, Olorum, Odin e Aquenaton;
Fiz parte destes mundos guiado pelos sons.
Gritei em iorubá somente por prazer,
Mas meu peito se ilustrou tentando entender.

Laroiê, Exu, Orixá da transição!
Shalom, Javé, Pai da criação!
Às vezes sincretizo mesmo em pouca fé,
Às vezes sintetizo aquilo que não é.

Às vezes me apaixono só por um segundo,
Às vezes me ignoro a me sentir imundo.
Há vezes que preciso de um abraço pra sorrir
E outras em que crio um universo a mentir.

Às vezes são claras as minhas tentações
E noutras não passam de vis ilusões.
Às vezes tento ser mais um mártir,
Mas não quero ser a semente de uma corte.

Às vezes me deprimo por não ver direito
Aquilo que para todos parece perfeito.
Às vezes desisto de parábolas idiotas,
Mas em poucos meses estou de volta.

Às vezes acendo mais um cigarro
Sabendo que o câncer começa pelo pigarro.
Às vezes saio à rua sem qualquer destino
E então, feliz, sinto-me um menino.

Às vezes busco coisas sem sentido,
Crio uma fábula e vivo o papel do bandido.
Às vezes preservo a dor que me destrói
Para sair do lodo e me sentir um anti-herói.

Às vezes sou o arco para a flecha da dor
Que, no meio do caminho, transforma-se em flor.
Às vezes sou Deus com trovões da minha boca,
Mas acordo e percebo que a minha loucura é pouca.

Ressinto o passado e o tento no presente,
Todavia sei que só estou carente
E minhas ações, às vezes, são castelos de areia
Que se perdem na brisa que me clareia.

Às vezes amo a mulher da minha vida,
Mas depois descubro que só a queria despida.
Às vezes espano a poeira que se acumula
Querendo que o trabalho seja uma cura.

Às vezes zelo por um pertence de estimação,
Emprestando a paz a uma sensação.
Às vezes coloco o impossível no papel,
Ciente que é pouco provável e cruel.

Às vezes me deito abobado sobre a terra
Para observar mais um dia que se encerra.
Às vezes tenho compromissos que não posso faltar,
Mas que se foda, pois às vezes irei contrariar.

Às vezes tenho medo do futuro distante,
Pois às vezes crio planos mirabolantes.
Às vezes jogo a âncora para não sair do lugar
E essas vezes são aquelas que não quero lembrar.