segunda-feira, 17 de julho de 2006

Conto de Mar e Periferia

A rotina sempre foi feroz para Júlia, uma tenebrosa acomodação somada a todos os possíveis moralismos e abnegações. Viver longe do Centro é odiável; embora a praia esteja a poucos metros da janela do seu quarto, as facilidades de uma sociedade falida sempre estarão lá. Por este motivo as suas colegas insistem em dormir fora do estabelecimento, pagar um pouco mais por algo que custe menos esforço físico.

Ao sair do banho, com uma toalha felpuda, enxuga cuidadosamente o seu implante capilar, uma excelente aquisição de melenas loiras que a fez muito mais provocante. Uma imagem que o delegado Rodrigo admira sem que ela perceba, enquanto este saboreia o adorável início de manhã. Rodrigo exclama:

- Júlia, fique assim, desse jeito!

- Oi, querido! Como passou a noite? - pergunta a bela criatura.

Com um sorriso que tenta ser elegante, mas não consegue devido aos seus dentes castigados pela ação da cocaína, Rodrigo responde:

- Quer que eu avalie seu desempenho?

- Eu devo ser avaliada? O preço da mercadoria é dado e o cliente paga sem avaliação, meu caro! - brinca Júlia.

- Nossa, como ela está esperta! - respondendo à provocação - Será que os clientes da casa não deveriam ter o direito de avaliar?

- Eu prefiro a avaliação dos gringos pervertidos, eles não precisam voltar para casa antes das oito horas da manhã. Posso ganhar a vida em um lugar melhor do que esta porcaria se permitir uma avaliação destas. - vestindo a calcinha e com o semblante apanhado por certo desprezo, a meretriz pensa em despachar o delegado falastrão de uma vez.

- Calma, Júlia, eu só fiz uma brincadeira! Vem aqui conversar comigo de perto. - indicando a cama.

- Sabe, eu não suporto mais. Estou com saudades da minha família em Vitória da Conquista, eles nem sabem o que faço e acho que poderia voltar, mas quando penso que vou sair de uma "mesmice" para voltar a outra, fico desanimada. - lamenta-se Júlia, cobrindo os seus seios e fazendo Rodrigo sentir que precisa motivá-la para ter sexo de graça pela manhã.

Rodrigo se levanta ainda nu, caminha silenciosamente na direção da mulher que já aparenta tristeza e murmura:

- Júlia, não fique assim. Eu não pretendia lhe deixar triste, não quero lhe ver abatida. Vem cá, - abraçando-a e sendo correspondido - não precisa dizer nada para mim, mas eu estou aqui.

Mesmo sabendo do que estava sendo planejado, ela não segura as lágrimas teimosas e comprime sua face contra o peito do delegado. Júlia se sente sozinha, como sempre foi, e seus braços o envolvem com uma força que chega a incomodar. Rodrigo nada faz, observa a prostituta trazendo o sofrimento à tona e perde qualquer poder de ação, qualquer instinto em querer possuí-la; apenas permanece abraçado, calado.