sexta-feira, 16 de junho de 2006

Matilha

Então Lígia dirige eufórica, repleta de problemas que serão aliviados com um baseado e bom sexo antes de dormir. A demissão de parte do quadro de funcionários na empresa a deixa preocupada, mas seu namorado, Carlos, pode fazer a situação parecer menos deprimente. Ela tenta pensar em carícias sem pressa, beijos fogosos e mãos perdidas sobre o corpo enquanto avança mais um sinal vermelho, temerosa pelo horário nas vias ilheenses. Ao sair do Polo Industrial, imagina o Alto do Amparo para comprar as cinqüenta gramas de maconha a fim de durar a semana, pois na Conquista e na Santa Clara as bocas passaram a vender um material prensado com amônia que irrita a sua garganta e a deixa com uma dor de cabeça aguda.

Lígia tenta sentir algo pelas menores na beira da pista, com trapos tão minúsculos que chegam a ser ridículos, mas não consegue; tudo parece pior - mais gélido - a cada dia. Garotas de treze a dezessete anos se prostituem por cinco reais ou uma pedra de crack, fato já comum e inabalável às pessoas da sociedade. As meninas se prostram faceiras, em mãos erguidas, esperando por um porco que alivie a dor de seu vício.

Após contornar o Parque Infantil e seguir à esquerda no semáforo para a Avenida Oceânica, Lígia está na decadente zona boêmia da cidade. Antigamente havia um fluxo imenso de caminhoneiros que - com o seu apetite sexual - traziam doenças venéreas de todo o Brasil para a localidade. O relógio marca onze horas e Lígia se apressa, antes que Carlos durma.

Ao subir a ladeira para o Alto do Amparo Lígia percebe algo fora do habitual, que seria três ou quatro boqueiros andando pela rua; tudo está tão calmo que o barulho do motor chega a ser uma agressão. Dirige-se ao final da rua escura em frente à igreja evangélica para encontrar alguém e nada vê, portanto, resolve sair do carro e buscar por um caboclo que dispense a erva.

Lígia caminha pelo escuro e vê um rapaz atordoado que, após a perceber, caminha ao seu encontro. Em pânico parecido - ou de fato - com o efeito do crack, ele pergunta:

- E aí, qual vai ser?

- Quero cinqüentinha da massa. - responde a moça.

- Nós tem pedra também, é o pânico!

- Não, só a massa mesmo.

- Se ligue, cliente, cinqüenta tá russo! Só tem bala de cinco.

- Aí você me quebra, mo fio!

- Nós tudo já é quebrado mesmo! - sorri o rapaz.

- Então faz o seguinte, me passa quatro balas.

- Tem como me arrumar dois real pra fazer intera numa bicha?

- Tem não.

- Porra, madame, tu chegou pra comprar cinqüenta e não quer me considerar dois real?

- É, né? Depois fico sem grana pra comprar as tais cinqüenta. - Lígia expressa certo desprezo.

- Qual é a sua, vadia, tá fazendo marra, é? - o rapaz faz uma careta inteligível.

Lígia se preocupa e diz:

- Olha, deixa quieto. Eu vou indo.- caminhando para o carro.

O rapaz a segura pelo braço e esbraveja:

- Qual é, vadia, tá pensando que eu sou viado, é?

- Moço, me larga agora! - assustada, mas com um olhar decidido.

- Ih, olha só a vadia: sobe no morro cheia de regra e acha que pode mais que o outros! - assustando Lígia.

- Moleque, me larga.

- Cadê o real? - passa a mão esquerda nos bolsos da moça.

- Ei, quem você pensa que é, caralho? - tenta chutá-lo sem sucesso.

O rapaz a empurra contra a parte de fora da porta do carro e a estapeia na nuca com o dorso da mão, dizendo:

- Sua fela da puta, aqui não tem ninguém pra me mandar parar.

Lígia cai no chão e muda o discurso:

-Moço, façamos o seguinte, eu te dou a grana e você me deixa ir.

- Passa esse caralho, vadia.

Lígia tira os trinta e cinco reais do bolso e estende a mão:

- Toma, fica com ele.

- Eu tô desconfiando que tu tem mais do que isso, vadia. É só olhar pra essa barca que te trouxe pra me deixar empolgado.

- Não tenho nada mais.- realmente não tem, além de documentos da empresa e alguns cartões de crédito em sua bolsa.

- Fala sério, sua vagabunda, eu vou entrar contigo nessa porra e procurar. Se eu não achar grana vou ter que te meter a pica.

- Moço, não precisamos resolver as coisas assim.

- Então me passa o real. - Lígia, no chão, está entre as pernas do rapaz.

- Mas eu não tenho. - Lígia chora.

O rapaz, ao vê-la chorar, não se abate e comenta:

- Vai chorar? Assim que é bom. - empurra-a para o banco do fundo do carro, entra logo em seguida e fecha a porta. -Vou esperar a madame tomar uma atitude pra eu fazer uma festa hoje.

- Moço, já te disse que não tenho nada.

- Não quero nem saber. - dá um soco na face de Lígia e desabotoa as calças. - Quer fazer marra?

- Moço, não faz isso, pelo amor de Deus!

O rapaz esbofeteia a cara de Lígia algumas vezes e arranca a sua blusa:

- Belas tetas, vadia. Sabe que nunca comi uma branquela tão gostosa? Tira a saia pra evitar trabalho!

- Não vou tirar. Você não vê que se compromete fazendo isso?

- Como? Tá noiada, desgraçada? - arrancando a saia e a calcinha de Lígia com raiva.

Lígia grita desesperadamente enquanto o rapaz a esmurra sem piedade, até a calar. Com o rosto desfigurado, cheio de hematomas, a moça se entrega para que tudo termine o mais rápido possível.