terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Quase Sempre



Deparo-me com tua foto - ao meu lado -
E me sinto a peça dolorosa d'um fado;
O dançarino ou cantor dolorido e vil
Que não reconhece o que vê ou sentiu.

O teu semblante nunca sorri, moça bela,
Até parece que foi recriada em mazela.
O teu olhar sempre tem algo mais a dizer;
Uma outrora fria ou um futuro qualquer.

É sempre você que nada me representa,
Mas - ao mesmo tempo - traz tanto.
Não sei se me rendo ao que acalenta,
Ou se me vendo consternado ao pranto.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Conto de Mar e Periferia

A rotina sempre foi feroz para Júlia, uma tenebrosa acomodação somada a todos os possíveis moralismos e abnegações. Viver longe do Centro é odiável; embora a praia esteja a poucos metros da janela do seu quarto, as facilidades de uma sociedade falida sempre estarão lá. Por este motivo as suas colegas insistem em dormir fora do estabelecimento, pagar um pouco mais por algo que custe menos esforço físico.

Ao sair do banho, com uma toalha felpuda, enxuga cuidadosamente o seu implante capilar, uma excelente aquisição de melenas loiras que a fez muito mais provocante. Uma imagem que o delegado Rodrigo admira sem que ela perceba, enquanto este saboreia o adorável início de manhã. Rodrigo exclama:

- Júlia, fique assim, desse jeito!

- Oi, querido! Como passou a noite? - pergunta a bela criatura.

Com um sorriso que tenta ser elegante, mas não consegue devido aos seus dentes castigados pela ação da cocaína, Rodrigo responde:

- Quer que eu avalie seu desempenho?

- Eu devo ser avaliada? O preço da mercadoria é dado e o cliente paga sem avaliação, meu caro! - brinca Júlia.

- Nossa, como ela está esperta! - respondendo à provocação - Será que os clientes da casa não deveriam ter o direito de avaliar?

- Eu prefiro a avaliação dos gringos pervertidos, eles não precisam voltar para casa antes das oito horas da manhã. Posso ganhar a vida em um lugar melhor do que esta porcaria se permitir uma avaliação destas. - vestindo a calcinha e com o semblante apanhado por certo desprezo, a meretriz pensa em despachar o delegado falastrão de uma vez.

- Calma, Júlia, eu só fiz uma brincadeira! Vem aqui conversar comigo de perto. - indicando a cama.

- Sabe, eu não suporto mais. Estou com saudades da minha família em Vitória da Conquista, eles nem sabem o que faço e acho que poderia voltar, mas quando penso que vou sair de uma "mesmice" para voltar a outra, fico desanimada. - lamenta-se Júlia, cobrindo os seus seios e fazendo Rodrigo sentir que precisa motivá-la para ter sexo de graça pela manhã.

Rodrigo se levanta ainda nu, caminha silenciosamente na direção da mulher que já aparenta tristeza e murmura:

- Júlia, não fique assim. Eu não pretendia lhe deixar triste, não quero lhe ver abatida. Vem cá, - abraçando-a e sendo correspondido - não precisa dizer nada para mim, mas eu estou aqui.

Mesmo sabendo do que estava sendo planejado, ela não segura as lágrimas teimosas e comprime sua face contra o peito do delegado. Júlia se sente sozinha, como sempre foi, e seus braços o envolvem com uma força que chega a incomodar. Rodrigo nada faz, observa a prostituta trazendo o sofrimento à tona e perde qualquer poder de ação, qualquer instinto em querer possuí-la; apenas permanece abraçado, calado.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Matilha

Então Lígia dirige eufórica, repleta de problemas que serão aliviados com um baseado e bom sexo antes de dormir. A demissão de parte do quadro de funcionários na empresa a deixa preocupada, mas seu namorado, Carlos, pode fazer a situação parecer menos deprimente. Ela tenta pensar em carícias sem pressa, beijos fogosos e mãos perdidas sobre o corpo enquanto avança mais um sinal vermelho, temerosa pelo horário nas vias ilheenses. Ao sair do Polo Industrial, imagina o Alto do Amparo para comprar as cinqüenta gramas de maconha a fim de durar a semana, pois na Conquista e na Santa Clara as bocas passaram a vender um material prensado com amônia que irrita a sua garganta e a deixa com uma dor de cabeça aguda.

Lígia tenta sentir algo pelas menores na beira da pista, com trapos tão minúsculos que chegam a ser ridículos, mas não consegue; tudo parece pior - mais gélido - a cada dia. Garotas de treze a dezessete anos se prostituem por cinco reais ou uma pedra de crack, fato já comum e inabalável às pessoas da sociedade. As meninas se prostram faceiras, em mãos erguidas, esperando por um porco que alivie a dor de seu vício.

Após contornar o Parque Infantil e seguir à esquerda no semáforo para a Avenida Oceânica, Lígia está na decadente zona boêmia da cidade. Antigamente havia um fluxo imenso de caminhoneiros que - com o seu apetite sexual - traziam doenças venéreas de todo o Brasil para a localidade. O relógio marca onze horas e Lígia se apressa, antes que Carlos durma.

Ao subir a ladeira para o Alto do Amparo Lígia percebe algo fora do habitual, que seria três ou quatro boqueiros andando pela rua; tudo está tão calmo que o barulho do motor chega a ser uma agressão. Dirige-se ao final da rua escura em frente à igreja evangélica para encontrar alguém e nada vê, portanto, resolve sair do carro e buscar por um caboclo que dispense a erva.

Lígia caminha pelo escuro e vê um rapaz atordoado que, após a perceber, caminha ao seu encontro. Em pânico parecido - ou de fato - com o efeito do crack, ele pergunta:

- E aí, qual vai ser?

- Quero cinqüentinha da massa. - responde a moça.

- Nós tem pedra também, é o pânico!

- Não, só a massa mesmo.

- Se ligue, cliente, cinqüenta tá russo! Só tem bala de cinco.

- Aí você me quebra, mo fio!

- Nós tudo já é quebrado mesmo! - sorri o rapaz.

- Então faz o seguinte, me passa quatro balas.

- Tem como me arrumar dois real pra fazer intera numa bicha?

- Tem não.

- Porra, madame, tu chegou pra comprar cinqüenta e não quer me considerar dois real?

- É, né? Depois fico sem grana pra comprar as tais cinqüenta. - Lígia expressa certo desprezo.

- Qual é a sua, vadia, tá fazendo marra, é? - o rapaz faz uma careta inteligível.

Lígia se preocupa e diz:

- Olha, deixa quieto. Eu vou indo.- caminhando para o carro.

O rapaz a segura pelo braço e esbraveja:

- Qual é, vadia, tá pensando que eu sou viado, é?

- Moço, me larga agora! - assustada, mas com um olhar decidido.

- Ih, olha só a vadia: sobe no morro cheia de regra e acha que pode mais que o outros! - assustando Lígia.

- Moleque, me larga.

- Cadê o real? - passa a mão esquerda nos bolsos da moça.

- Ei, quem você pensa que é, caralho? - tenta chutá-lo sem sucesso.

O rapaz a empurra contra a parte de fora da porta do carro e a estapeia na nuca com o dorso da mão, dizendo:

- Sua fela da puta, aqui não tem ninguém pra me mandar parar.

Lígia cai no chão e muda o discurso:

-Moço, façamos o seguinte, eu te dou a grana e você me deixa ir.

- Passa esse caralho, vadia.

Lígia tira os trinta e cinco reais do bolso e estende a mão:

- Toma, fica com ele.

- Eu tô desconfiando que tu tem mais do que isso, vadia. É só olhar pra essa barca que te trouxe pra me deixar empolgado.

- Não tenho nada mais.- realmente não tem, além de documentos da empresa e alguns cartões de crédito em sua bolsa.

- Fala sério, sua vagabunda, eu vou entrar contigo nessa porra e procurar. Se eu não achar grana vou ter que te meter a pica.

- Moço, não precisamos resolver as coisas assim.

- Então me passa o real. - Lígia, no chão, está entre as pernas do rapaz.

- Mas eu não tenho. - Lígia chora.

O rapaz, ao vê-la chorar, não se abate e comenta:

- Vai chorar? Assim que é bom. - empurra-a para o banco do fundo do carro, entra logo em seguida e fecha a porta. -Vou esperar a madame tomar uma atitude pra eu fazer uma festa hoje.

- Moço, já te disse que não tenho nada.

- Não quero nem saber. - dá um soco na face de Lígia e desabotoa as calças. - Quer fazer marra?

- Moço, não faz isso, pelo amor de Deus!

O rapaz esbofeteia a cara de Lígia algumas vezes e arranca a sua blusa:

- Belas tetas, vadia. Sabe que nunca comi uma branquela tão gostosa? Tira a saia pra evitar trabalho!

- Não vou tirar. Você não vê que se compromete fazendo isso?

- Como? Tá noiada, desgraçada? - arrancando a saia e a calcinha de Lígia com raiva.

Lígia grita desesperadamente enquanto o rapaz a esmurra sem piedade, até a calar. Com o rosto desfigurado, cheio de hematomas, a moça se entrega para que tudo termine o mais rápido possível.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

A Destruição do Ser



Ter-me como desacreditado,
Um egoí­sta ébrio…

Deixe-me em paz,
Entretanto preciso de nossa guerra!

Não me julgue:
Eu sou a ilusão da posse,
O nosso que é o meu ideal.

Mesmo que não pareça nobre,
Nunca fui tão sincero.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

A Moral desta Umbra



Aguardo, amor meu,

Teus delgados lábios
Abertos,

Tua úmida lí­ngua
Desperta,

Teu fulcro d’alma
Profana,
Herege,
Exuberante,
Luxuriosa.

Aguardo, amor meu,

Teus túrgidos seios
Pulsantes,

Tua suave mão
Sedenta,

Teu puro sorriso
Orgí­aco,
Carnal,
Egoí­sta,
Trêmulo.

São os teus olhos diante dos meus:

Um beijo sem toque,
Um ví­rus mortal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Hábito Jogado ao Vento



Tentei ser feroz
Aludido à presença conturbada d’um precipí­cio.

Cantei…
Cantei e morri antes do último verso.

Sofri sem dor
E ainda sofro pela indecisão.
Peno por ter que ficar,
Angustio-me por sentir que não dá.